Manandre

Monday, September 08, 2008

Elfos e trolls

Houve um dia uma conferência num país frio. Perguntava-se à audiência de jovens estudantes quantos acreditavam em elfos e trolls. 50% destes jovens já tinham falado com um elfo, 20% conheciam alguém que já tinha falado com um, e 30% acreditava porque toda a sua vida tinham ouvido relatos de histórias onde estas figuras andam a ser transformados em montes ou em rocha aos primeiros raios de sol. Na realidade, neste país quando uma estrada em construção está para atravessar um monte e a máquina avaria, o monte é rodeado e deixado em paz. Neste país as formas rochosas são mais recentes do que em qualquer outro lado. E as suas formas parecem mesmo as de um troll que se distraiu com as horas. O heroísmo é realçado em sagas milenares e a sua mitologia está povoada de monstros marinhos e machados sangrentos. São um povo metido com eles, tirando à noite quando se tornam nos vikings que sempre foram e mandam garrafas pelos ares como se no mundo nada lhes pudesse fazer tocar. Neste país a água quente cheira a enxofre nas torneiras das casas e não há estradas completamente asfaltadas. Existem centenas de pequenas quintas onde apenas o nome de família chega para receber uma carta. Existem fumarolas, vulcões e Geysers. Quedas de água, baleias e lagoas glaciares. Um vento frio constante e águas aquecidas pela Terra. Cenários lunares, outros dignos do senhor dos anéis, outros os quais poderíamos contemplar até nos tornarmos estátuas iguais a tantas outras na paisagem. Neste país a Natureza domou o Homem enquanto este se maravilhava com o seu poder. Bem vindos à Islândia.








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Monday, May 05, 2008

Padre Manuel Antunes



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Para a geração pós-25 de Abril o que se passou em Portugal após o golpe nunca foi bem claro. Temos bem noção da luta que exigiu bloquear o golpe da esquerda, temos noção que vinham Belgas e Franceses a Portugal fazer turismo de revolução. “Andava-se na rua, e de repente, uma pessoa subia a um banco da rua e começava a discursar. Havia quem aplaudisse, havia quem apupasse, mas sempre com o respeito pelo outro bem saliente.”Sabemos que estas lindas e únicas imagens revolucionárias só foram possíveis em Portugal, apesar de irmos ouvindo aqui e ali, que fora de Lisboa as coisas não foram assim tão joviais e bonitas como se descreve. Sei que houveram muitos casamentos nove meses depois, sei também que alguns perderam muito, enquanto muitos ganharam muitas oportunidades. Sei que nas faculdades quase não se avaliou ninguém e todos passaram. Sei que foi uma revolução, nunca nada é igual depois, e o resultado final foi incomparavelmente melhor que o anterior.

Mas o que me tenho apercebido, é que, essencialmente, o 25 Abril foi uma oportunidade perdida. Foi uma tábua rasa, mas o povo, quem nela escreveu, escreveu com todos os defeitos que ainda hoje arbitramos como normais do nosso povo. Foi a ler o Padre Manuel Antunes que me apercebi disso, e como trinta anos depois destes textos, a luz que apontava está à mesma distância. “Despartidarizar, desburocratizar, desnacionalizar e descentralizar o estado”.

Quem me conhece sabe que a primeira me toca especialmente. A palavra original era "Desclientalizar", mas o próprio Manuel Antunes a descreveu como sendo essencialmente "Despartidarizar" o aparelho do estado.

Lendo P. Manuel Antunes percebemos a necessidade de ter um quadro de valores para a Democracia funcionar, sejam da igreja que advogava, sejam simplesmente porque tiveram uma educação que isso vos proporcionou. A tal fraternidade que também é parte da nossa Democracia, mas raramente lhe é dada importância.

Foi professor dos meus pais na Universidade de Letras em Lisboa. Deixou-lhes uma marca que vi nos seus olhos quando falavam dele. Nunca vi ninguém a sistematizar tão bem o caminho que Portugal deve seguir. Mesmo que já se tenham passado trinta anos.

Foi assim que passei o 25 de Abril. Já o 24 à noite foi passado no Carmo a ouvir cantar o que esperava ser mais típico e menos cubano. Sincero, fez-me falta um Grândola.

Wednesday, March 26, 2008

A incompetência será televisionada

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As tricas entre o CDS e o PSD competindo por um lugar à frente do último, os números do PS que mesmo repetidos incessantemente não furam pedra e o PCP que apenas repete o que o BE diz. Mas aos solavancos. Ana Drago, por mais triste que te deixe, quando falas prefiro o torpor da beleza ao raciocínio. Sei que o PCP o vai dizer de seguida. O comportamento padronizado dos partidos põe-me dúvidas no conceito de democracia. Uma ideologia e um rumo partidário são óptimos, mas deve ser impossível concordar sempre. Com bom senso e dando mais importância aos valores humanos de cada um do que a umas linhas num livro, percebe-se que defender sempre o mesmo partido é humanamente impossível. Dando-me a liberdade de uma opinião pessoal e nada instituída, é antidemocrático, não pensamos por nós próprios. Assim como o é, por parte do partido, castigar uma pessoa por usar o seu quadro de valores em vez da ideologia para tomar as suas próprias decisões. A pergunta a lançar é se a disciplina partidária, dentro e fora do parlamento, é ou não democrática. Não se surpreendam com a relevância dada a ideologia neste texto. Sei que não a conseguem identificar ao centro do nosso espectro político. Pensem que quis ser simpático. Os rumos partidários estão despidos de linhas mestras e constantes. Depende do contexto. Temos uma política feita de políticos que olham o contexto e nunca se enganam. Na televisão.

Sunday, March 09, 2008

Aproveitei a barba de duas semanas, pus o meu chapéu de Che e apanhei o 738 que me iria deixar na manifestação. Levava os phones, dava a impressão de revolucionário que ouve Rage Against the Machine, com um look de guerrilheiro da América do Sul em carga contra os cordões das autoridades. No autocarro havia professores, falavam entre eles, riam, não consegui prestar a devida atenção à conversa e o violão de Django parecia tão mais interessante nos meus ouvidos.
Tendo crescido entre professores, as reuniões sociais destes não me eram estranhas. Esta apenas teve mais gente. Enquanto ia vendo o aumentar de pessoas na rua, num movimento unidireccional no sentido do Marquês, ia pensando, naqueles ensaios da realidade que desafia qualquer probabilidade mas que é só nossa, o que faria caso uma repórter esbelta descesse de um daqueles helicópteros e me perguntasse o que estava a fazer ali. Preparei-me antes para essa pergunta, aliás, fui preparando-me insistentemente até me decidir a ligar aos meus pais e dizer que ia com eles. Escrevia assim o meu pai durante a semana:

A ESCOLA PÚBLICA EM PERIGO

Tenho ouvido professores, pais com filhos na escola, ministra educação, 1ºministro, jornalistas, politicos, "zé povinho" .... confusão, "violência" , ignorância, desrespeito, discurso vazio... digamos que o "debate" caiu na rua...e aquilo que deveria ser sério, (porque se trata de um assunto sério) transformou-se numa análise fútil... A ministra mais tarde ou mais cedo deixará o lugar. Virá outra/o. A politica de ensino (que é o que interessa) continuará a mesma, pois está bem delineada há muito tempo: Destruir a escola pública, esvaziando o conteúdo do ensino. Preparar mão-de-obra barata, obediente e logicamente nada criativa...
Mas, porquê desmantelar toda uma tradição (que vem da 1ª República)? De onde vem esta politica "contra natura" que tanto faz correr os nossos governantes nestes últimos anos? São ordens dos novos "senhores feudais" provenientes de Bruxelles que visam destruir a nossa concepção de escola democrática.
A escola que nos querem "impigir" tem por objectivo formar alunos ignorantes, entregues à escola a tempo inteiro, onde o "faz de conta" é regra. Os pais não assumem a educação dos filhos porque estão a ser tão apertados nos seus empregos quanto os professores no seu. É preciso que compreendam que a luta também é sua pois o que aqui está em jogo é o desmantelamento de toda a sociedade civil. Todos devemos estar unidos pois a escola que era de todos está a ser desfeita à vista de toda a gente. O processo de desmantelamento é tão descarado que o Poder não hesita em recorrer à autoridade e fugir ao debate democrático para impor a sua politica. Para isso, auxilia-se dos que se limitam a cumprir ordens mesmo sabendo que estão a ser agentes dessa destruição. Criando a figura do director e cargos de nomeação o governo assegura que as suas leis serão cumpridas e postas em prática, pressupondo que os mais fragilizados na sua carreira profissional se lhes submeterão, mais cedo ou mais tarde. Parece que o governo tem timings a cumprir, o país tem de se submeter à avaliação da União Europeia, que estabeleceu metas e prazos. A "autonomia" concedida às escolas é: arrangem-se lá como quiserem desde que em 2013 esteja tudo aplicado, senão...
A substituição da ministra é urgente e necessária, mas o mais importante é romper com as politicas educativas... não basta mudar as moscas...Pode-se ganhar uma batalha mas o importante é ganhar a guerra. Para entender isto são precisas muitas e boas aulas, um conhecimento histórico e cultural sólido e a noção do que é viver verdadeiramente em democracia...e isso neste preciso momento até já está em causa...”



A questão é muito superior a uma ministra ou a uma política de educação, destes não tenho formação para falar mal ou bem. Sei que a progressão automática nunca fez bem a qualquer regime, a longo termo. Uma completa idiotice é a forma como se quer implementar a reforma, mas esta é uma conversa recorrente sobre como se estabelecem premissas em Portugal para atingir os mesmos resultados que vemos no estrangeiro. Somos apenas bons demais para parar nos intervalos em que os outros pararam e cumprir as mesmas regras que os levou ao sucesso.
Enquanto descia a Liberdade ia ouvindo que estava na hora, na hora da ministra ir embora. Para alem de me fazer olhar para o relógio e ser uma péssima rima, deixa-me uma falta de confiança na forma como se constroem regras em Portugal... Somos inconsequentes. Faz-se uma pergunta a um qualquer político, ele responde com o discurso pré-feito n.3 em que nada diz senão repetir as intenções com as quais ninguém pode discutir...mas não se repete a pergunta. Fazemos perguntas directas, mas contentamo-nos em poder fazê-las, esquecemos a resposta, afinal o sacana nunca ia admitir que estava errado. Mandamos abaixo uma ministra, mas não contribuímos para a resolução do problema, apenas adiamos a solução.

Quão bom é o facto de vivermos numa sociedade livre em que perguntamos e protestamos o que queremos, se ninguém nos responde, nem construímos nada?

Mas deixo a educação correcta ou não, para o jojolopi, ele está a sofrer na pele com isto e não me lembro de nenhuma ocasião em que a razão não tenha estado do lado dele...eu nunca tive muito jeito para arregalar os olhos. Creio na mão invisível de Adam Smith, mesmo que no diz respeito a instituições do estado. As 100 mil pessoas com a quais caminhei durante aquela tarde fazem parte dela. Quando aquela repórter de óculos de massa preta e cabelo em carrapicho me aparecesse de microfone na mão, e me fizesse a pergunta que temia... "Não sei, parece-me ser o mais correcto a fazer".

Sunday, March 02, 2008

História

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Tuesday, February 26, 2008

A volta ao mundo de Joao

Um amigo anda a dar a volta ao mundo. Deixou o trabalho e tudo o que conhece para trás, e seguiu atrás do que me dizia, tinha que fazer. Comecou pelo norte de áfrica. Podem ir vendo as fotografias aqui. Boa sorte Joao.

Monday, February 04, 2008

Os Himalias e Akshays big day

A subida foi feita a 2 etapas. Primeiro, para me habituar à altitude, ficámos numa aldeia cigana a cerca de 3000 mil metros. Lembro-me de estar a chegar de carro e a minha cabeça já estar a estalar. Na transição de homem para rato tive as dúvidas que qualquer um teria, mas não iria voltar para trás agora. O dia passou-se calmamente a conhecer os arredores e a beber muita água. Na manhã seguinte iria com Kalick e mais dois miúdos da zona até ao lago Gungbal, que segundo Kalick ficava a 6000 metros, no sopé da montanha Harmuck, a montanha mais alta e nunca conquistado de Caxemira, a 7000 metros.

A sensação naquela altitude é que se dermos um salto bem alto ficamos em órbita. Os passos custam menos a dar e a nuvens correm rápido por cima das nossas cabeças. Ao lago fui sozinho com um dos miúdos locais, e lá no topo, enquanto o meu companheiro se refugiava entre as rochas para não apanhar vento gélido, segui sozinho até ao lago. Estranho o sentimento e de onde ele vem. Sentei-me meia hora perguntando-me como cheguei ali. As escolhas que fui fazendo, o caminho que percorri até estar a 6000 metros nos Himalias. Quem eu era, quem sou, quem serei... numa escolha que sabemos nada ter a haver com as nossas decisões mas gostamos pensar que controlamos. Fugir ao conforto de um mundo indeterminista usando um racionalismo determinista que sei falso.

Lá no topo a minha máquina fotográfica congelou. Companheira de tantas viagens resolveu tirar tudo branco. Mas nada me mandava abaixo naquela hora. Estava no topo do meu mundo.

Passei mais dois dias em Srinagar, esperando a névoa passar até aviões puderem começar a pousar. Naqueles dias apercebi-me do fervor religioso dos habitantes de Srinagar. Uma manhã disseram-me que se estava a rezar nas mesquitas para que chovesse. Disseram que se não chovesse as pessoas iam deixar de ter água para beber, doenças iam espalhar-se e tudo iria ser pior. Uma das coisas que aprendi na vida foi a detectar discursos saídos de boca mas não da cabeça, discursos que apanhamos de ouvido e apenas repetimos com a mesma gravidade das pessoas que nos incutiram. Perguntei-lhes o que dizia a meteo. A resposta automática dizia que choveria se Deus assim quisesse. Fiquei com pena de uma das religiões mais bonitas se portar exactamente como todas as outras. É fácil ver que vai chover dentro de dois dias nas previsões meteorológicas, incutir a catástrofe de não a ter nas pessoas que vão ao serviço religioso, e no dia seguinte rezar pela queda da preciosa. Quando dizia a Kalick que poderiamos ouvir no rádio a previsão para o tempo, ele dizia-me que não precisava de nada disso, Deus tomava conta dele, e o que Deus quisesse estaria sempre bem para Kalick. Foi a paz na sua cara que me fez calar. Na verdade não me sentia com argumentos suficientes para quebrar uma forma de vida de séculos. Debaixo das gotas de chuva nessa tarde senti-me próximo de Kalick, na sua maneira simples de ver o mundo e de ser feliz com o amor do seu Deus que faz chover, não ligando a nada do que diz a meteorologia.

É engraçado ver que tanto no primeiro como no terceiro mundo, a maior repressão intelectual é feita através da informação, sua manipulação e acesso. Não é de estranhar que sejam sempre os media os primeiros a sofrer num estado autocrático, e que sejam esses mesmos media que se aproveitam do poder que detêm sobre a opinião pública, nos países de primeiro mundo. Lembrei-me de uma discussão tida em Paris, onde eu advogava que a real democratização dos poderes legislativo, judicial e executivo era o próxima passo na Democracia. Alguém dizia que só acreditava quando o conhecimento seguisse o mesmo caminho. Deveríamos votar nos jornalistas, deixar os políticos ter uma carreira normal. A democratização e uniformização de conhecimento, é essa a resposta aos problemas do mundo.

Segui para Mumbay. Ia encontrar Anocas, companheira da América do Sul, e Bia que andava pela Ásia há 3 meses. Dali seguiríamos para Pune onde o nosso amigo Akshay se ia casar. Entretanto conheci Orwan, meu vizinho no avião e com quem tive as conversas mais interessantes em toda a Índia. Falámos de amores passados de cada um, dos objectivos que ele tem na vida, dos problemas de Caxemira. Passámos uma noite a caminhar na praia de Bombaim. Os hindus tinham medo dele, por se notar tão bem que era de Caxemira e isso dava-me espaço para respirar nos pontos em que somos mais solicitados. De madrugada voltámos ao hotel, estava o último carro de bombeiros a ir embora. O meu quarto pegou fogo, por um curto circuito no ar condicionado, e a minha mala estava preta e chamuscada. Soube no dia seguinte que todo o hotel tinha sido evacuado por causa do incêndio. É incrível como uma coisa destas consegue mandar uma pessoa abaixo. Enquanto verificava o estado da roupa sentia o ânimo a vir abaixo e só pensava em dormir e esperar que de manhã tivesse tudo bem.

A densidade populacional de Mumbay é das mais altas do mundo, e não fiquei a gostar mais das cidades indianas por causa de Mumbay. Foi engraçado assistir à habituação da Anocas ao país, e imaginar-me a mim no início, tudo tão novo. A zona de Colaba é a mais gira para ficar e se ver em Mumbay, mas é a vida da cidade que mais chama a atenção. A praia está sempre cheia de gente e pequenas feiras com carróceis espalham-se ao longo do areal. Massajadores de cabeça andam sempre à caça de cabeças para usarem as suas mãos divinas, crianças brincam por todo o lado e as bolas de cricket estão sempre no campo de visão. As crianças têm bancos geridos por crianças onde elas podem depositar o dinheiro que vão ganhando na rua. Mumbay é tão frenética como genuína.


Em Pune, a terra da noiva, passámos 2 dias, outros dois em Nagpur, a terra do Akshay. O casamento tem mil tradições, pequenas velinhas e ditos que vão decorrendo ao longo dos 4 dias. Primeiro ele vai buscar a noiva à sua terra, apresenta a sua família e os seus amigos. Depois leva-a juntamente com toda a sua comitiva para a sua terra, o que neste caso representava 600 km de distância. No dia seguinte chega a família dela ver se está tudo bem.



Gostava de concluir ao jeito dos grandes mestres literários que nos fomos habituando a ler. Mas na verdade é difícil arranjar palavras para concluir algo que não irá acabar na nossa cabeça. A Índia e o que aprendi sobre mim próprio e sobre como vive maior parte da população do mundo vai sempre estar presente nas minhas acções, nas minhas palavras. Já viajei um pouco pelo mundo, mas nunca aprendi tanto.

A Índia é a maior democracia do mundo. E funciona como tal, com todos os seus problemas e falhas. Entre a modernidade e a tradição, sem que ninguém adivinhasse, consegue manter-se um equilíbrio saudável e que dá mostra a algo tão diferente do que um ocidental está habituado, que valeria sempre a pena visitar, nem que fosse por cinco minutos.

Crescer sem viajar e conhecer outros mundos é como ficar dentro da barriga da nossa mãe toda a vida. Viajar e a humanidade é o melhor que o planeta Terra nos oferece. Não percam esta oportunidade.


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A aldeia cigana.

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O acampamento.

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A subida.

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Ao fundo o pico Harmurk a 7000 metros de altitude.

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Orwan e a sua namorada.

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O casamento do Akshay - Fotos cortesia da Bia.

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O leito nupcial.

Tuesday, January 15, 2008

Haridwar e Srinagar

O circuito turístico na Índia tem três grande pólos. Agra, o Rajastão e Varanasi. Varanasi é a mais conhecida das cidades santas. Não só se cremam os corpos dos mortos, como também é local de peregrinação para os budistas. Penso que já todos vimos fotografias dos eremitas que saem de anos a anos debaixo das suas árvores, com os seus cabelos emaranhados e os seus corpos sujos da falta de um banho. Esses homens santos, que resolveram deixar tudo para trás, família, dinheiro, a vida, também são peregrinos nesta cidade. Mas mas em Delhi informei-me do que era Varanasi. Quando me disseram que era como Agra, turístico, resolvi mudar de plano. O que me interessava era ver a maneira como o povo interagia com o rio sagrado, os cabelos de Shiva, e para isso tinha mais duas cidades bem mais perto de Delhi. Uma é Rishikesh, a outra muito mais discreta, tanto que nem tinha hotel para dormir, era Haridwar. Nem que seja pelo título, pela minha aversão ao circuito turístico, a escolha era óbvia.

Quando olho para trás não deixo de me sentir mal por não estar no meio daquelas fotografias de Varanasi que me habituei a ver nas revistas de viagens pela Índia. Mas lá fez todo o sentido. Tanto mais pela cidade de Haridwar. Quem já visitou a Índia, Marrocos ou um país afim, habitua-se à ideia de estar constantemente a ser chamado para comprar isto ou aquilo. Nunca ouvi tanto “Hello” na minha vida, jurei por nunca mais atender um telefone assim. Em Haridwar, nada nem ninguém me chamava. Eu caminhava nas ruas, e era apenas mais um no meio de milhares de peregrinos. Com o tempo fui percebendo que enquanto as outras duas cidades se iam enchendo de turistas, em Haridwar não havia sequer quem fizesse dinheiro com turistas. Vi apenas um ocidental, daqueles que parece mais indiano que os próprios. No princípio disse-vos que, fora do circuito turístico, o povo indiano é lindo nos seus valores e no seu sorriso. Esta frase nasceu em Haridwar.

A cerimónia é enebriante. Milhares de pessoas juntam-se na berma do Ganges e aprontam-se a arranjar uma folha grande cheia de pétalas. Estas são queimadas, fazendo uma pequena chama que por obra divina não queima a folha. Os arranjos são enviados pelo Ganges abaixo, num espectáculo de nenúfares iluminados. Ao mesmo tempo, esses milhares de pessoas vão gritando e levando os braços ao alto, num uníssono assustador. As pessoas banham-se durante todo o dia. A todas as horas. A corrente, com o balanço ganho nos Himalias, é fortíssima. Existem correntes presas às margens a que todos se seguram enquanto mergulham, indo acima e abaixo na posição vertical, tapando a cabeça apenas por uma fracção de segundo.

Tinha pensado bem se deveria tomar banho ou não. Do ponto de vista pragmático, eu não me banharia no Tejo se a tempertura (estava um frio) fosse aquela. Nem em outro qualquer rio. E afinal, respeitando o pragmatismo, o Ganges significava tanto para mim como o Tejo. O sagrado só estava na cabeça daquelas pessoas. Resisti aos vários convites do Harish, que se ria dizendo que eu era a pessoa mais porca daquela cidade. Dormimos num Hashram, casa de peregrinos. Cada um paga o que quer, e tem-se uma cama, um lavatório e um buraco no chão. Mas estar no meio daquelas pessoas e brincar com as crianças punha o meu estado espírito de tal forma que me sentia no palácio do marajá mais rico. Penso que aprendi aí, que a felicidade pode vir das coisas mais insignificantes.

Tinha chegado a altura de dizer adeus a Harish. Disse-vos logo no início, que bastava 5 minutos com aquele homem e nunca mais seriam a mesma pessoa. E é essa a definição mais elogiosa possível no meu cardápio. De tanta má sorte que teve na vida, nunca terei eu aquele sorriso, mesmo com toda a boa sorte possível.

Só quando cheguei a Portugal é que disse aos meus pais que tinha estado 6 dias em Caxemira. Enquanto lá estava dizia-lhes estar nos Himalias. Apesar de saber bem que apenas me enganava a mim. Após Haridwar tinha a hipótese de ir para Varanasi ou para o sul da Índia, era esse o plano inicial. Até hoje não vos consigo explicar porque fui. Insensato concluímos todos, mas lembro-me de escrever quando cheguei, aqui estou eu, onde apenas os tolos vêm, e tão feliz por o ser. Um nobre muçulmano, quando chegou ao vale de Caxemira exclamou, a haver um paraíso na terra, então só pode ser aqui no vale de Caxemira. Deixo a descrição para as fotografias de Srinagar.

Caxemira é uma zona de guerra. Temos barricadas nas estradas, com sacos de areia e metralhadoras do tamanho de canhões de água por detrás. Em cada intersecção no centro da cidade existem 3 membros do exército indiano que revistam os Kashimirim que passam. O sentimento é misto, por um lado sentimo-nos seguros com tanto exército, por outro não queremos descobrir a razão que leva a tão grande dispositivo. Mas nem sempre foi assim. Durante a ocupação britânica era uma zona nobre de turismo. Os Ingleses fizeram milhares de casas barco, cada uma mais trabalhada que outra, e povoaram o sistema de lagos do vale. O nevoeiro e o frio parecem bem britânicos, e não me admirou nada o interesse Inglês . Pensava eu ser impossível ter mais frio. No presente o investimento Indiano em turismo na zona é elevado. O aeroporto está a ser convertido em internacional, e as infraestruturas de apoio ao turismo são desenvolvidas. Apenas não têm turistas para os experimentar. Em Caxemira existem os independistas apoiados pelo Paquistão, os independistas que não aceitam o apoio de ninguém, os pró-indianos, os que defendem a autonomia... Se juntarmos que Caxemira é nascente dos principais rios da Índia, está tudo montado para haver conflito constante. Lembro-me de falar com os locais e me dizerem que Jesus Cristo tinha lá estado, antes e depois da incursão que mudou a história. Até dizem que está enterrado numa gruta no meio dos Himalias... Hei-de um dia escrever um livro sobre isso.

Fiquei numa casa barco, donde tirei as fotografias mais bonitas que algum dia vou ver. A paz é enebriante, o kingfisher ou o mergulhão vai voando por cima das águas do lago até encontrar a sua presa, mergulhar num ápice e desaparecer durante segundos, que parecem uma eternidade imaginando os seus pulmões. O lago tem cerca de 5 metros de profundidade, a mesma altura que as algas que vão roçando na canoa, o único meio de transporte para as casas barco. Os recolhedores de algas vão apanhando-as e pondo na parte de trás do barco até este deixar a primeira gota. Nos intervalos vão fumando o seu cachimbo de água povoado do sempre constante ópio. Ao longe, ao perto, de todo o lado, numa das cinco horas marcadas por dia, escuta-se as três primeiras frases do Corão, repetidas por um sem número de vozes por detrás do microfone. Sentimo-nos pequenos perante o som da voz do imã e todos os que o seguem.

Tive companhia nos primeiros dias. Do meu povo favorito, em todas as viagens que tenho feito, sempre me dei bem com o povo australiano. Os tipos estão sempre bem e prontos a dizer qualquer coisa que nos põe um sorriso nos lábios. Na viagem pelo rio fomos vendo o mesmo que já tinha visto em Tigre perto de Buenos Aires, a maneira como as pessoas vivem apenas com água à volta. O barco escola, o barco do gás, o do supermercado, como todas as casas têm uma canoa à porta. Como as crianças de Srinagar vivem lado a lado com a opressão vinda de todos as correntes políticas no país, e mesmo assim conseguem jogar cricket em 10 metros quadrados de terreno com, claro, muitos mergulhos.

E foi assim que me preparei para a verdadeira aventura da viagem. Iria passar 3 dias nos Himalias, ia subir a 6000 metros com Kalick, o melhor cozinheiro do mundo.


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Haridwar

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Os cabelos de Shiva que deram origem ao Ganges.

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Os milhares que se banham no Ganges.

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Srinagar.

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Kalick.


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Thursday, January 10, 2008

Udaipur e Jaisalmer

Se querem uma vila de sonho, então essa é Udaipur. À volta do lago Pichola e o seu maravilhoso palácio de Verão, Udaipur está rodeada por montes, a terra vai acima e abaixo consoante se tenha ou não zangado com algum deus subterrâneo. Os palácios de água eram feitos em terra seca. Esta era depois inundada por uma barragem, fazendo o espectacular cenário de um palácio rodeado de água. Foi aqui que foi gravado o James Bond Octopussy, coisa que nos repetem insistentemente cada vez que se fala com um dos locais. Num dos cafés passava sem interrupção durante o dia todo.

Na subida de acesso ao forte, um templo carvado em pedra. A religião Hindu é em todo diferente de qualquer outra moderna. Começaram por ser apenas três Deuses, Brahma, Vishnu e Shiva. Terá sido uma mistura das divindades locais com as divindades trazidas pelos Arianos quando ocuparam grande parte da Índia há mais de 3000 anos. É engraçado ver suásticas pintadas nos carros, camiões, vendidas como artesanato na rua. Um símbolo que na Europa ainda nos faz arrepiar, lá é um de boa sorte. No casamento do Akshay, quando a união estava para acontecer, um pano branco com uma suástica vermelha estava entre os noivos, caindo apenas na hora em que se deviam casar.

Com três divindades, e sendo a reincarnação o passo após a morte, muitas das famílias poderosas dos vários reinos e clãs, declamavam que os seus antepassados eram reincarnações desses deuses ou filhos. Assim se criou Ganeisha, Anduman, Pavarti, Krishna... Eu sempre tive a queda por Krishna, afinal o tipo tinha um número milenar de namoradas ao mesmo tempo, número esse que mudava de indiano para indiano, mas sempre com muitos zeros à frente. Mas Harish sempre me dizia ser mais como Anduman, o que não me deixava no quinto céu, afinal Anduman nunca casou e era um guerreiro que ajudou Krishna a destruir um demónio. Mas Krishna ficava com as tipas.

O Budismo e o Jainismo surgiram como protesto à casta monge Hindu. Um pouco como Lutero criou o Protestantismo na Europa. O Budismo e o Jainismo caracterizam-se por não prestar homenagem a deuses, mas sim a pessoas iluminadas como Buda. Os ícones são de pessoas em posição de meditação, e se vos digo isto, é porque nunca vão poder ver uma fotografia, estas são fortemente proibidas. O adjectivo forte tem uma boa utilização aqui, as pessoas em frente aos ícones parecem formar um cordão de segurança numa vigília constante.

Assim como o templo a Anduman no meio das montanhas, parámos num templo Jainista entre Udaipur e Jaisalmer. As pessoas meditam com as mãos ao centro e vão repetindo o Ohm, o som que se ouviu quando o universo foi criado, literalmente, o som do Big Bang segundo a tradição Ariana, e uma letra no seu alfabeto.

Em Jaisalmer estamos a cerca de 100 Km do Paquistão, estamos perdidos no meio do deserto mas com a melhor companhia possível, o seu povo do qual o cameleiro de Pushkar era um ilustre representante. Depois do habitual pôr do sol seguimos para jantar perto de uma aldeia de casas de lama. O seguimento era dormir no deserto, e não vos escondo que sempre admirei as estrelas e as constelações. Os meus amigos dizem que gosto de contar a história das estrelas. Sempre pensei no que seria dormir no deserto, a dezenas de quilómetros da luz mais próxima. A lua estava nova, e a visão nocturna prometia ser incrível.

Durante o jantar bebi como um cacho. Não é aquele orgulho parvo, mas na verdade sentia-me entre amigos, todos estavam com o mesmo espírito, no meio daquelas casas de lama passei uma das melhores noites da minha vida. Os indianos de um lado, e os cinco ocidentais do outro rapidamente se transformou em todos juntos de cerveja na mão. Nunca me ri tanto na Índia, penso que simplesmente me sentia igual. Harish estava com os seus alunos, sendo um sénior na lide, havia jovens que lhe pediam ajuda a lidar com os clientes ou até mesmo a conduzir. Era um bando divertido aquele.

Quando à noite me deitei debaixo daquela abóboda celestial incrível, havia o dobro das estrelas e elas insistiam em andar às voltas. Digamos que para bem da saúde de quem me acompanhava resolvi guardar o sonho para uma outra vez.

Jaisalmer, ao contrário dos outros fortes que fui visitanto, tinha a cidade dentro de si, não sendo apenas a casa de um qualquer marajá. Pequenas vielas labirínticas, onde até as vacas tinham dificuldade em passar, fazem o interior deste forte do sec. XII, o mais velho da região. Com a crescente procura de quartos no interior do forte, o número de hóteis têm estado a multiplicar-se. O elevado consumo de água e o seu envio para um sistema de saneamento feito para uma cidade do deserto habituada a pouca água estão a destruir as fundações do forte. O movimento Inglês para a preservação do forte de Jaisalmer luta para a consciêncialização dos turistas para que fiquem acomodados fora do forte. Jaisalmer, juntamente com Udaipur, são as cidades que, sem dúvida, vale a pena visitar no Rajastão.

Seguia agora de volta para Delhi, na cabeça a aversão ao circuito turístico ia passando a raiva. Raiva essa que iria pesar na escolha dos próximos destinos.


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Udaipur

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Foi aqui gravado o Octopussy... Agora transformado em hotel de luxo.

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Cada vez que via um macaco na beira da estrada, Harish travava o fundo e tratava de os alimentar.

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Templo Jainista

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Jaisalmer

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Thursday, January 03, 2008

Jaipur e Pushkar

De todas cidades onde estive, Jaipur é sem dúvida a mais suja. Para além de toda a confusão normal, ainda temos a acrescentar porcos e um número cada vez maior de camelos. Capital do Rajastão, com 5 milhões de pessoas, tem o maior forte, antiga casa dos marajás. Antes de se tornar um estado da união indiana, o Rajastão existia num regime de clãs, transformados em marajás, onde famílias disputavam a hegemonia pela rotas comerciais que ligavam a Índia à Ásia Central.

Para além do forte, pouco há a dizer de Jaipur, à parte do melhor ponto para ver o pôr do sol. Foi aqui, numa esplanada a ver o sol a cair que me apercebi que os Indianos não tem grande resistência ao álcool. Para amenizar o Harish convidei-o para beber uma cerveja. Passado algumas Kingfisher, percebi que o tipo já se ria com as moscas que passavam ao nosso lado. Foi então que lhe comecei a perguntar pelas lojas e comissões. Como funciona o esquema? O tipo desmanchou-se todo, e fiquei a perceber como tudo na Índia é sobre o negócio. Its all about business, dizia Harish, frase que repetiu mais mil vezes cada vez que um indiano lhe vinha oferecer comissão para ele me levar a uma loja, ou a um homem santo. O acordo que fizemos foi simples. Eu dava-lhe o equivalente a três lojas por dia, e ele livrava-me de tudo o que fosse do género. E assim foi. Apesar de estar sempre a perguntar se eu queria comprar alguma coisa, nunca me tornou a enganar, e todos os seus conselhos foram bons. Never stop in the street...

E de facto, o segredo na Índia é nunca parar quando nos perseguem com ofertas. Armado de sorriso e pernas imparáveis. É a melhor maneira de estar na Índia. E foi assim que seguimos caminho, naquele lusco-fusco da madrugada em que a minha viagem começou a fazer sentido. Talvez por saber como me comportar. Ganhar aquela segurança em mim próprio que me fez saber como me comportar em qualquer situação.

Partimos a caminho de Pushkar. Cidade santa, e um dos maiores centros de peregrinagem da Índia e uma cidade que vive numa luta que assume contornos violentos. Pushkar é também a cidade onde se realiza, pelo mês de Novembro, o maior festival de camelos da Índia. Assim os cameleiros e os homens santos estão em luta constante pelos turistas. Na portagem à entrada da aldeia atacaram logo Harish, falando-lhe em indiano e prometendo-lhe comissão caso ele me levasse aos homens santos. Harish alinhava com os cameleiros, passo o ridículo da expressão. Eles não enganam ninguém. Quando passei no alto do camelo e vi os turistas a receber flores dos homens santos, para de seguida serem extorquidos do dinheiro que tinham, afinal as flores custam rupias, assim como as rezas, as boas sortes a todos os membros da família que são tão maiores quanto a contribuição, percebi que Harish tinha razão.

Em Pushkar comecei a fazer amigos ocidentais. Não vos faz ideia a vontade que tinha de falar com alguém que visse as coisas como eu. Partilhar a inversão de valores que ia sofrendo, partilhar a maneira como a Índia me ia mudando. Queria perceber se estava a ser normal, nesse conceito de normalidade que pensamos tão global, mas que rapidamente fica em dúvida na Índia.

Enquanto passava no camelo, o cameleiro era insultado e ameaçado pelos homens santos. Há expressões que nem na Índia necessitam de tradução. A repulsa perante aquela luta por turistas fez-me sentir mal. É o fruto daquela pobreza que Harish e eu víamos todos os dias, de vidro aberto e ar condicionado desligado porque simplesmente achava injusto poder tê-lo. Algo que nos faz pensar em esvaziar os bolsos, tirar a roupa até ficar mais nú que aquelas pessoas, para apenas chegar ao fim e perceber que nada podemos fazer para mudar a situação. Sentimo-nos pequenos e insignificantes. Não podemos fazer a diferença ali. E não conseguimos ser indiferentes. É a melhor definição que a Índia pode ter, o sítio onde é impossível ser-se indiferente.

O festival é uma feira de camelos. Pelo meio tem concursos como quantas pessoas conseguem ficar em cima de um camelo, atracções circenses, e centenas de famílias que descem do deserto que é partilhado com o Paquistão para fazerem o seu negócio. Sente-se que a mesma feira ocorre anualmente, imutável desde milénios. As pessoas dormem em tendas ou não, no meios dos animais, o meio de transporte é o camelo ou cavalo, e as mulheres urinam subindo a saia e agachando-se discretamente. Lembrei-me do meu avô. Ele percorria centenas de quilómetros de bicicleta para vender os sapatos que fazia na sua pequena oficina. Lembrei-me de todas as histórias sobre luz eléctrica, casa de banho, quartos em comum... Cheguei à conclusão que aquela realidade não está assim tão longe para mim. Que já não bastava ter nascido noutro país para ser igual àquelas pessoas, bastava ter nascido em Portugal trinta anos antes. Apercebi-me que somos todos filhos da experiência e da envolvente às nossas vidas, não somos mais nem menos que a pessoa ao nosso lado, tivemos apenas experiências de vida diferentes. Experiências que muitas vezes não podemos escolher.

O cameleiro perguntava-me de onde era. De Portugal, respondia com este orgulho patriótico que nunca sabemos bem de onde vem. A sua cara, e a sua dificuldade em repetir o nome entendia que nunca tinha ouvido de tal nação. Comecei a fazer o mapa-mundo, com um pauzinho no chão do deserto. Apontava-lhe os continentes, depois França, Espanha, e finalmente Portugal. Pouco fazia sentido pelos seus olhos. Quando lhe perguntei de onde era, sou do deserto. Paquistão ou Índia? Do deserto. Hindu ou muçulmano? Somos mais antigos.

Foi com uma secreta inveja que desisti de lhe incutir esse pedaço de informação. Inveja de ser como ele, livre desta fome de conhecimento que existe no meu mundo, como modo de nos provarmos a nós próprios aos olhos dos outros. Sempre aos olhos dos outros. Enquanto o seu povo fazia o jantar e eu esperava olhando o pôr do sol, percebi que a humanidade é tão diferente pelo o que nos faz felizes. As crianças brincavam com as cabras do rebanho, os homens brincavam com os tachos de arroz por detrás de mim, e riam. Um riso cujo adjectivo para classificar ainda vou demorar para encontrar. Aqui não existe.



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De Agra para Jaipur, no meio da montanha, o templo a Anduman o deus-macaco. As pessoas tomam banho antes de ir ao templo, e este está cheio de macacos por todos os lados. Dar comida aos macacos é considerado bom Karma.



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Jaipur

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Festival de camelos, Pushkar

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O rapaz cameleiro na esquerda

Thursday, December 27, 2007

Delhi e Agra

De Mumbai apanhei um avião directo Delhi. Em Delhi e seguindo os conselhos do guia fui para a incrível Main Bazar. Uma coisa que temos que saber sobre os guias na Índia, é que a sua linguagem é bem pacífica, e esconde uma realidade bem diferente. A rua tinha uns três, quatro metros de largura, largura essa que estava preenchida de carros, motas, vacas, pessoas e sacanas cujo objectivo é apenas caçar turistas. A minha primeira incurção na Índia foi feita de mochilas às costas, guia na mão, à procura de um hotel, numa das piores zonas da cidade. Um totó na Índia.

Instalado, resolvi bater a estação de comboios e autocarros para arranjar a melhor maneira de correr o Rajastão e Agra. Ao aperceber-me de como as coisas funcionavam, como vos contei antes, resolvi cair nas mãos de uma das agências que existem na Main Bazar. Fui perguntando o preço até ficar satisfeito e com alguma confiança, sentimento que não abundou muito nesses primeiros dias. Durante esses mesmos dias aproveitei para conhecer Delhi. A primeira imagem que tenho é a de um elefante na autoestrada. A segunda, e que exemplificava bem o meu estado de espírito melindroso, eram as águias. Assim como aqui temos os pardais dos telhados, na Índia temos águias, ameaçadoras e imponentes. A sul de Delhi na lixeira que recolhe o lixo das 20 milhões de pessoas que a habitam, a visão que supreenderá qualquer um é a de um turbilhão de milhares de águias girando à volta de um eixo imaginário. Saberia mais tarde, que por debaixo, centenas de pessoas recolhiam o que podiam dessa lixeira, num macabro sistema de reciclagem.

Quando abre um sinal verde em velha Delhi e centenas de veículos, motorizados ou não, começam a ir na sua direcção, o que vemos desafia qualquer probabilidade de um simuladores de trânsito. Não há acidente nenhum. Mas o trânsito é um bordel. Não existem espelhos retrovisores. São substituídos pela buzina do carro que aí vem, ou seja, por cada ultrapassagem, se houver uma buzinadela, ou dois gritos no caso das bicicletas e carroças, uma linha desta folha não chegaria para contabilizar os participantes na sinfonia.

Andei com Harish pela cidade, ou Honey, dizia-me ele, que maior parte das pessoas não se lembravam do seu nome. Há muitas pessoas a pedir nas ruas de Delhi. No entanto, reparava que só as crianças me vinham pedir a mim. Havia ainda velhos magros de turbante na cabeça, cajado na mão, e o mais singular pedinte de todos, travestis que pediam no meio das filas de trânsito. Os dois últimos nunca me pediam nada a mim. Era Harish o alvo. À esquerda do volante, Harish já tinha as pequenas moedas que distribuía pelos vários que lhe batiam à janela. Quando uma criança me vinha pedir olhava-o de soslaio, e ele mandava-me fechar a janela. A culpa destas crianças estarem a pedir é dos pais, que não tomam conta da sua educação. E aos outros dás? É diferente, é um bom karma dar esmola aos homens santos e aos gay people, como lhes chamava.

Não gostei de Delhi. Talvez por ter sido o primeiro sítio onde pus os pés. Gostamos de nos dizer cidadãos do mundo, mas vi coisas em Delhi que não deveriam fazer parte de mundo algum. Dessas partes vou escusar-vos. O sentimento que cada um tem perde-se em palavras nos ouvidos de quem não passou pelo mesmo. Foi com um sorriso nos lábios que largei a capital indiana e parti rumo a Agra.

Agra é casa do majestoso Taj Mahal. O Taj, visto durante o nascer do sol, é como um camaleão, passa do branco pálido e morto a um edifício em chamas com os reflexos laranjas do sol que vai nascendo. A história do Taj é uma de amor. Conta-se que no seu leito de morte, a mulher do imperador Shah Jahan lhe terá dito, faz-me um sepulcro digno do nosso amor. Da Pérsia veio o arquitecto e durante perto de 20 anos o Taj foi sendo construído. Conta-se que, por ter uma outra mulher negra também finada, o imperador resolveu igualar a obra do outro lado do rio, mas desta vez em mármore preto. O filho e futuro herdeiro não gostou que tanto dinheiro fosse gasto nas obras do pai e tomou conta do poder. Aprisionou-o no forte de Agra, onde ainda hoje se tem a cadeira do imperador, onde este terá passado infindáveis dias vendo a construcção do Taj ao longe. A construcção do Taj preto está hoje em dia no seu início, no mesmo sítio onde o imperador planeava, apenas de menores dimensões. Quem realmente sofreu foi o arquitecto, que ficou com ambas as mãos cortadas, para que nunca tornásse a fazer uma obra igual.

Agra é o Taj, o forte, e milhares de lojas à volta. Turístico passa a ser um adjectivo realmente negativo naquela cidade. O Harish fazia o seu ordenado levando-me a lojas, recebia as suas 50 rupias de comissão e mais 5% de tudo o que eu comprasse. Na primeira caí que nem um pato. Queres ir ver uma demonstração de como o Taj foi feito? Claro. E foi assim que ganhei uma hora a ouvir um vendedor de mármores. Mas não foi tão negativo, havia realmente uma demonstração, de 30 segundos, onde podia ver uma sala cheia de crianças a trabalhar em mármore. Foi nessa altura, vendo as crianças a serem exploradas, que decidi nunca mais entrar numa loja indiana. Quando o Harish me perguntou se queria ver um amigo dele, e quando cheguei à porta me apercebi que realmente era uma loja, dei-lhe o sermão da vida. Seguíamos agora em silêncio para Jaipur, a caminho do deserto.



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Gateway of India - Monumento de homenagem aos mortos nas guerras.

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Zona do ministérios.

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Não haverá som como o da cítara. E não há sítio como a Índia para a ouvir ser tocada.

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Saturday, December 22, 2007

Índia

A única coisa que podem aprender com a minha experiência, isto não a vivendo, é que nada vos prepara para a Índia. Nada que vos digam, que possam imaginar, vos prepara para a total ausência de uma visão conhecida. Tudo sai fora do nosso imaginário, esqueçam o café simpático na esquina, o prédio de fachada arranjada, a tabuleta que de maneira tão simpática vos informa em que rua estão. A única coisa que podem aprender aqui, é a destruir o vosso referencial ocidental.

Sem guia e apenas com as sábias palavras da Graça Mexia as semanas antes foram passadas entre a internet e olhar o mapa da Índia sem saber o que se escondia por detrás daquelas províncias, com nomes enormes de sílabas que parecem juntar-se por acaso. Se era claro na minha cabeça que nunca ia faltar ao casamento do Akshay, razão que me levou lá, o que estava a fazer indo três semanas mais cedo, sozinho, não era tão claro. Diria que só lá me apercebi que estava sozinho no meio dos 20 milhões de habitantes de Delhi.

Foi sobre os desertos do Paquistão, já de Lonely Planet no bolso, que resolvi seguir o conselho de Graça e ir directo a Delhi. Perto de Agra, Varanasi e Rajastão, torna-se o centro de todos os turistas, viajantes e backpackers que partem nesta viagem. A insegurança é a primeira a aparecer. Apesar de também a espaços durante toda a viagem, rapidamente se percebe que não tem razão de ser. Vai desaparecendo à medida que se vai percebendo que fora do circuito turístico, o povo indiano é lindo na sua cultura, nos seus valores e no seu sorriso.

Embevecido pelos valores de viajante quis fazer tudo sozinho. Comboios, autocarros, existem, nas suas dezenas de classes. Mas os bilhetes são para daqui a três dias. O tipo da Rishka, a troco de uma comissão, em vez de me deixar na estação, deixava-me no amigo que vende bilhetes falsos ou no mercado negro. A primeira impressão de um turista na Índia é que é um pedaço de carne com carteira. Quando pensei estar numa agradável conversa com um indiano, a ganhar confiança, logo vinha a conversa do amigo que tem uma loja e que nos vai oferecer chá.

Diziam-me que em visita à Índia, durante a primeira semana nos perguntamos o que estamos a fazer ali. Na segunda se começa a perceber alguma da lógica daquelas pessoas, e na terceira nos perguntamos o que vamos fazer de volta para o nosso país. Estava em plena primeira semana, e não estava a gostar nada de Delhi. Com três semanas para gastar, resolvi não perder tempo em filas de fuínhas e fiz o que a maior parte das pessoas faz. Contratei um carro e um condutor. Foi assim que conheci Harish, e se vos conto esta viagem de sorriso nos lábios, muito se deve a ele. Percorri milhares de quilómetros ao lado desse mascador de tabaco, viciado em ópio e whiskey, que todos os dias me oferecia prostitutas. Bastava estarem 5 minutos com este homem e qualquer um de vós mudava para sempre.

Quando lhe dizia que não às prostitutas, perguntava rindo se não queria ao menos tirar fotografias. Quando lhe dizia que beber todos os dias era um desperdício, perguntava-me como se podia dizer que não a um amigo. Quando lhe dizia que o ópio como hábito não era bom, perguntava-me como poderia aguentar a sua vida sem ele.

Para nenhuma tive resposta. Ao viajar pela Índia tomei consciência, tão facilmente que me chocou nestes princípios cristalizados de ocidental, que no lugar daquelas pessoas, nós seríamos exactamente iguais. Bastava apenas ter nascido lá. Nada mais. No fim, temos a vaga certeza que seríamos bem piores.

Os vários lugares em pormenor vem nas próximas semanas.

Tuesday, December 18, 2007

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Saturday, November 10, 2007

Espero voltar vivo e com fotografias. Até breve.


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Monday, November 05, 2007

Índia

Estava calor e a fila tinha o condão de não diminuir. Havia a fila dos ocidentais, pessoas como eu, que jaziam debaixo do sol, rodeados por umas daquelas barreiras vermelhas em forma de grade de janela de prisão. Os Indianos, que nunca percebemos o que faziam... entre papéis e os seguranças Portugueses de uma distinta companhia de segurança privada que, de certeza, não tinham na sua fileira de habilidades um curso de nomes Indianos. Estes que se amontoavam naquilo que deveriam ser outras quatro filas.

Os seguranças vinham cá fora e gritavam um nome, primeiro em sílabas, depois com o contentamento de quem acertou no nome. Com uma confiança que só a eles enganava, berravam a viva voz o nome. KA....MIL.... MA.....NU....É... KAMIL MANUÉ!! Logo os Indianos disfarçavam em coro um riso abafado, enquanto um deles repetia o nome tão galantemente berrado pelo segurança, e claro, com o mesmo sotaque. A gargalhada vinha então, desta vez, por parte de toda a humanidade.

A porta fechava-se ao meio-dia. As pessoas saiam de dentro do incrível edíficio... vivenda. E o hall de entrada... o passeio da rua em frente ao edifício... vivenda. Os mais terríveis rumores corriam nas fileiras. A porta fecha e mais ninguém entra... estão lá duas pessoas para todas estas que se encontram aqui fora. Os seguranças embebidos daquele espiríto colonialista manejavam as folhas A4, crivadas de sílabas de fonética Indiana, como se fossem chicotes.

Respirei fundo. Duas horas de fila depois continuava com a velha inglesa que pensava que sabia falar Português à minha frente. À taxa de uma pessoa por hora seria impossível ser atendido... E a vista do rio Tejo misturada com a bancada do Belenenses já cansava... Meia hora mais tarde estava a entrar na agência de viagens, e do visto estou à espera.

Dia 10 de Novembro embarco na maior de sempre, 4 semanas na Índia. O ensaio na embaixada não correu nada bem. Encontrei-me com Graça Mexia por estes dias. Um amigo em comum apresentou-nos via números de telefone. A sabedoria de quem já passou lá 4 vezes sossegou-me o espírito, e ajudou-me a perceber como as coisas funcionam naquele país. Organizámos a viagem juntos, ela dizendo onde devia ir, eu perguntando pelo mais óbvio. Olhando aquela senhora de 70 anos que viaja desde sempre, sempre com duas amigas, e sempre usando dos métodos menos convencionais encheu-me de coragem para o que se avizinha.

A ideia romântica de ir à Índia desaparece na ponta de uma vacina e de uma velha que o que tinha de querida na voz tinha de bruta na picada. Nunca as palavras “estou cheia de pressa” me assustaram tanto. Depois é tratar de tudo, os sítios onde vamos, o mosquiteiro, o repelente, os comprimidos para desinfectar a água, os sítios onde há guerrilha... porque o espírito aventureiro do Europeu adapta-se nesta casa de bonecas onde todos vivemos. Nestes países, o valor da vida humana mede-se por um referencial bastante diferente... “Vais ter que levantar os pés para não pisares os mortos no chão...” É esta a imagem e o badalo que continuam a bater na minha cabeça.


(continua...)

Monday, October 08, 2007

Varanda na Rua do Olival

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Dizem que devemos sempre sentir casa. Seja um sítio, uma pessoa, uma situação. Dizem que só assim nos sentimos completos e encontramos sentido nos minutos que vão passando. 3 meses passados sem saber bem o que fazer, de fim de semana em semana a andar por Portugal, a reatar amizades, a criar o sistema em que sei bem existir neste país. Para descobrir que quem fui conhecendo e o que vivi lá fora são as pessoas e momentos que quero de volta. Fala-se da saudade do emigrante. A do retornado é bem pior.

3 meses passados encontrei esse sentido, esse sistema que tão diferente é do antigo, mas ao mesmo tempo que preenche tão bem os minutos que se seguem a este. A verdade é que esses minutos não passam na varanda da rua do Olival.

Monday, August 13, 2007

Ilha de Tavira

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Wednesday, June 20, 2007

Este blog vai de férias. A Holanda vai ficar para trás, e um novo desafio vem aí. Até breve.

Monday, June 11, 2007

Maria

Deve ter sido imaginação. Perante a impossibilidade de ouvir um bebé gritar a 2000 quilómetros de distância. Nao quero duvidar das tuas capacidades de expressão, se saíres à tua mae com a tua idade, vais ter um prazer especial em ter a certeza que todos te ouvem. Mas deve ter sido imaginação. Estar longe dos acontecimentos mais importantes da minha vida é o complicado contra-senso que enfrento. Nao é que tenha um passáro que vá dando as horas a sair-me da cabeça. Mas quão amarga é a sensação de distância nesta altura, mais viciante é poder usar a imaginação para te ouvir e ver. Maria, sê bem vinda à família.

Jornais, media e quejandos (na américa)

A resposta do Bruno sobre os media nos EU.